O Rush nunca foi uma banda convencional, o gênero progressivo, as mudanças de andamento nas músicas totalmente fora da fórmula do sucesso, e o carisma de um vocalista incrivelmente feio e com uma voz esganiçada que só dá certo com ele, fazem do Rush um desses casos de mega banda inexplicáveis.
E tudo isso é muito bem explorado pela banda. Começando com o fato dela não se encaixar no tipo bandinha da moda, o público do show é formado por coroas motoqueiros de jaqueta de couro e suas mulheres e filhos sendo catequizados, e alguns projetos disso com suas respectivas namoradas. O que isso tem a ver? O show vira uma espécie de culto religioso ao deus do rock, representado ali pelos santos Geddy Lee, Alex Lifeson e Neil Peart.
Mas isso não é o suficiente, a produção tem que ultrapassar os limites do imaginável para um esquema de iluminação, que tal uma aranha gigantesca se movendo ora mexendo suas pernas, em cima das cabeças dos nosso santos, ora como se se balançasse em sua teia, iluminando a platéia e nos deixando de queixo caído? E labaredas no palco? Firula? Também, mas muito bem empregada, sem rivalizar em momento nenhum com a música, mas sim, tirando a nossa atenção dos músicos para os efeitos que a música pode causar. Quando não é com a iluminação, é com os vídeos nos telões, como no solo estarrecedor de Neil Peart acompanhado por uma animação de um robô fazendo o mesmo que ele, só que com vários braços e pernas.
Mas o que mais impressiona é a relação da banda com o fanatismo dos fãs. Nenhum momento é mais emblemático para essas pessoas do que um show, e o Rush brinca com isso de um modo simpático e eficiente. O momento mais esperado de um show, o apagar das luzes, é seguido de uma esquete interminável na qual a própria banda encena o nascimento de uma banda segundo os padrões da indústria fonográfica, que pode ser qualquer uma, menos o Rush. Essa e outras esquetes fazem parte do filme que narra a apresentação.
Quando, finalmente, a banda aparece, o público tenta conduzir a apresentação para o que está acostumado, mas a banda aos poucos reverte isso em atenção total no palco. Não é um show para bater cabeça, é para assistir boquiaberto e sair sem acreditar no que viu e ouviu. Nesse ponto, o mais engraçado e o que acontece depois do intervalo (quando os integrantes já não muito novos vão aliviar as bexigas, palavras de Geddy Lee), todos sabemos que a próxima é a mais do que clássica Tom Sawyer. As luzes se apagam novamente, e o que acontece? A banda da esquete toca o início de Tom Sawyer, um sacrilégio, o momento mais esperado do show repetido algumas vezes em meio a palhaçadas dos três brincando de atuar. Perdeu a graça? De jeito nenhum! E mais uma vez a Apoteose veio abaixo, e mais uma vez o trio deixou todo mundo quietinho, prestando atenção no professor Neil Peart no arrasador trumrumrumrumtum. Quase uma oração.
Outro momento sacralizado de um show, o fim, quando olhamos uns para os outros e fazemos aquelas caras e falamos aqueles palavrões, respiramos fundo e damos as costas para o palco. Deu tempo só para os palavrões, o telão passa a cena do filme “Eu Te Amo, Cara” na qual a banda faz uma participação. Hilário, descontraído, todos saímos rindo, satisfeitos, flutuando. Que venha o próximo!